quinta-feira, julho 12, 2007

MAR E LUZ, AMAR E LUCE. MARILUCE


Luce,

Mariluce

de

todas as luzes

e

dona

de

minhas auroras.






Você entrou em minha vida, em 29/10/1976. Menina ainda, ainda em flor, magnificamente bela, e seus olhos castanhos eram como dois lagos intocados e transparentes à minha alma. Poeta incurável e crônico, de pronto percebi que todos os meus amores haviam na verdade me preparado para aquele momento fantástico e indescritível: sim! Chegara o amor que eu esperara por uma vida inteira. Eu contava 25 anos (iria fazer 26 em agosto) e você contava com 17...

O mundo em que nos conhecemos era inóspito e selvagem. Você não percebera pela pureza de sua alma, de sua vida. Eu o ignorei solenemente por saber sonhar.

Sim, poetas sonham tridimensionalmente e desconstroem o mundo para reconstruí-lo de acordo com suas querências.

Naquele momento mágico minha alma encontrara sua parte perdida em algum ponto qualquer do universo e do passado e se reencontravam ali, no mundo da Música que é prima-irmã da Poesia. Fácil para um poeta perceber e se perder...

E me perdi me encontrando em seu olhar, em suas digas, em seu encantamento.

Pronto! Meu amor realizava sua plenitude e me tornava pleno e descobri que existia o orgasmo poético e até hoje seu sêmem jorra de meu interior em digas que dizem iras, em falas que falam de amor.

Mas ao entrar em minha vida trouxe muito mais. Eu, fruto de um momento de amor esquecido, tornei-me filho da Vida e afilhado da Liberdade tendo como Tempo o pai e minha casa eram todas as ruas de todas as cidades. E embora o amor e a capacidade de amar existissem em mim desde muito menino, e de força e intensidade indizíveis, poucas foram as vezes em que permiti sua manifestação, especialmente no período entre a minha primeira infância até meus treze anos. Depois o prendi e esqueci onde guardei a chave, até que você chegou naquela primavera com ela nas mãos e nos olhos.

Mas não foi só essa a chave que você me trouxe. Com ela trouxe aquilo que é a referência da Vida, a família. Trouxe um pai, uma mãe, uma irmã e até (veja como você é completa!), até um avô!!!

Papai Waldemar, mamãe Alba, Marialba, o nono...

Esse amor, ou essa forma de amar e de ser amado, aprendi sua plenitude através desse encontro, naquela primavera você acendeu todas as flores do jardim de minha vida. Aliás, quase todas...

Depois nos casamos. Na manhã de 17 de julho de 1982. Tinha que ser de manhã para que você com sua luz não acanhasse as luzes que seriam acesas nem a da lua e das estrelas que nas noites de inverno são sempre mais brilhantes.

Então sim, chegaram a Juliana e o Pedro, frutos de uma árvore enxertada por raízes vindas da luz, de Luce com seu dom de amar, já que Amar e Luce tem tudo em comum...

E, para completar a perfeição, Paula e Gustavo.

Nunca fui perfeito, vez que poetas não são perfeitos para esse mundo. Se fossem não tentariam mudá-lo com suas palavras e com sua inaceitação.

Mas como a Vida sempre me amou, colocou a perfeição para caminhar comigo ao longo dessa jornada e a cada dia que passa você é mais perfeita e a beleza que emana mais bonita.

Queria escrever isso mais adiante, mas o faço hoje para entregar para você ler mais tarde. Mas as digas do poeta são como filhos e logo as queremos ofertar à viva, ao mundo, ou a quem as inspirou.

Não! Não vou esperar nem mais um minuto e as coloco diante de seus olhos. Esse é o banquete que a Poesia me ensinou, o pão cuja massa aprendi a misturar com minhas lágrimas e sorrisos, alegrias e dores, nos momentos de fome ou de fartura, temperados com as qualidades do amor que você me ensinou a amar.

Bem que poderia esperar mais cinco dias (se tudo correr bem faremos Bodas De Prata e aguardaremos mais 25 anos para as de Ouro).

Mas o que são cinco dias diante do que tem a qualidade de eterno?

No mais, não esqueça que assim como seu amor nasceu para me amar... nasci para amar você.

Como na despedida de minha primeira carta escrita para você há 31 anos atrás, repito aquela frase...

- Beijo seus olhos!

Rio de Janeiro, 12 de julho de 2007, 5 dias antes do dia 17 de julho, mas quase 31 anos depois em que em você descobri que somos um...

Paulo

quarta-feira, julho 11, 2007

MEUS IRMÃOS.



Cidão e Corsário,


Amanhã, quinta, estarei fazendo um exame e certamente tudo correrá bem e depois de amanhã estarei novamente amando e sendo amado pela vida. Esse amor é antigo e se renova a cada manhã, e mesmo quando aos meus olhos impermitiam contemplar o azul do céu, eu o via através dos olhos de minha imaginação. Coisa de poeta e de louco.

Escrevo agora quando a noite já caiu junto com a chuva para lavar o ar e as calçadas para minha alegria e prazer. Gosto muito do barulho dos pingos da chuva que cancionam em meu telhado (temos muita sorte de termos telhas em nossas casas), e essa canção me leva a tempos idos e a pés descalços correndo pelos paralelepípedos em regatas memoráveis onde os veleiros eram palitos de sorvete que pegávamos nas calçadas (claro que tinha sempre um mais engenhoso, mas de pouco sonhar, que fazia um barquinho de papel que não suportava as corredeiras nem os pingos das chuvas). E assim muitas foram as horas e as tardes de minha infância.

De lá para cá, nunca abri mão de meu maior tesouro: sonhar. Muito menos deixei de agradecer à Vida as coisas belas que me permitiu e permite viver, a mulher e os filhos que colocou em meu caminho, nem as lágrimas que derramei. Tudo isso fez de mim o que sou e gosto de ser quem sou.

Entre os tesouros que a Vida coloca em nosso alforje, nessa viagem sem começo nem fim, o amor e a amizade são os maiores e mais valiosos, mas, ao contrário de meu xará que ficou cego quando se dirigia para damasco: a Amizade é maior que o Amor.

Falo do alto de minha experiência em Amor! Afinal, quem convive mais com o Amor que o Poeta?

Muitos vivi até encontrar minha mulher que começou com a paixão, passou pelo Amor comum, até ser o que hoje é: o Amor-Amizade, que nunca morre.

Nunca tive nem fui de ter muitos amigos. Sou amante exigente e desconfiado...

Além de meus filhos e de minha mulher, amigos só tive ao longo da vida, quatro ou cinco. Desses, apenas vocês continuam vendo o mesmo azul e respirando as mesmas auroras que eu. Os demais se foram antes de mim, antes de nós, para o grande oceano indecifrável para onde todos irão um dia.

Por isso, por não saber se amanhã dançarei minha última valsa com minha derradeira namorada, quero aqui deixar registrados meus sentimentos, minha amizade, meu respeito, minha admiração e o grande amor-amizade que sinto por cada um de vocês que sempre estiveram presentes em minhas horas, independente se eram nubladas ou raiadas de luz.

Agradeço à Vida por ter conhecido e poder privar dessa amizade leal e inteira, que recebo de vocês.

Não poderia deixar de falar isso agora vez que faço o que manda meu coração, como todo poeta.

Vida longa, paz e saúde para os dois, para a mais velha, para as crianças e para os que amam vocês!

Rio de Janeiro, 20:28h do dia 11 de julho de 2007.

quinta-feira, junho 28, 2007

LICENÇA PARA MATAR


LICENÇA PARA MATAR




por Paulo da Vida Athos.






Não vou especular na base de "quantos matariam quantos, usando essa ou aquela droga”, lícita ou ilícita. Nem quantos "tarja-preta" são desviados das farmácias e coisa e tal.

Minha matemática é mais simples e meu objetivo mais real.

O quilo da cocaína lá no produtor custa US$500, aqui chega a US$5000 na mão do traficante. Pura. Claro que depois misturam com pó de mármore ou estricnina, tanto faz, como é praxe em outros ramos que burlam o direito do consumidor por essas plagas.

Mas vejam: o imposto sobre o cigarro no Brasil é nada mais nada menos que 75%. Bom número, não?

Se o Estado arrecadar o mesmo com a cocaína, a Souza Cruz poderá colocar o quilo aqui, já manufaturado e prontinho para uso em cada boteco da vida, a menos de US$2500, em gramas embaladinhas, purinhas, com canudinho esterilizado, e ainda teria um baita lucro (mesmo com os impostos). Logo, o traficante teria que procurar outra atividade saindo de seu habitat. Tudo seria comprado sem receita, como a cachaça e outras drogas mais que aqui são vendidas licitamente.

Minha teoria é: quem quer se prejudicar, tornando-se alcoólatra ou adicto, babau. Problema dele. Se quiser matar ou roubar por estar bêbado ou trincado: vai rodar um dia. Morrer ou ser preso. Sem essa conversa mole de que não podemos aumentar o número de viciados, de “peninha de viciado”. Isso é discurso pra jegue, enganador, hipócrita.

Isso não existe! O que existe é o medo da classe média de ver seus filhos com a droga sendo vendida na porta de casa, no botequim ao lado, pois está muito claro que tem muita gente que não sabe educar filhos e os perdem, se viciando, ou roubando, ou dando porada em doméstica só porque confundiu a pobre com uma miserável prostituta. Nem vale perguntar pra desvairado se em prostituta se pode bater.

E esse medo faz com que não se importem em manter uma proibição corruptiva que municia o tráfico, que arregimenta os jovens de nossos guetos roubando-os de seus pais, roubando-lhes a vida, que só ontem matou duas dezenas desses jovens (pretos ou pobre ou ambos, culpados ou inocentes, pois ninguém me convence que eram todos culpados). Pior! Ninguém liga para esses pais, para essas mães que em nossos guetos vão perdendo seus filhos para a sedução da única oportunidade que nós permitimos a eles: o tráfico, legitimado por nossa omissão.

Que matem eles por lá, e viva a proibição!

Esse é o Direito Penal do Inimigo que estamos oferecendo, como reclamado anteriormente. E o que é ele? E isso tudo e muito mais.

A Rede Globo bate contra a Classificação Indicativa em todos os seus programas, por ser censura (eu também acho que é e que deve ser repudiada por todos que conhecem seus efeitos). Mas tão danoso para a Democracia quanto a censura, é a informação manipulada. No Brasil, a GLOBO é a rainha-mãe dessa sacanagem.

Quem viu o Jornal da Globo, antes do Jô (que se sabe, é um programa gravado à tarde) teve bem claro o que é a manipulação da notícia, que é tão abjeto quanto a censura.

O Jornal da Globo anunciou que “muitas armas de grosso calibre, inclusive duas .30, capazes de derrubarem aviões e pararem tanques, foram apreendidas, e mais de uma dezena de mortes ocorreram segundo a secretaria de segurança”. Na verdade, todos sabiam desde a tardinha que quase duas dezenas de mortes haviam ocorrido e o próprio Jô deu o número oficial, 18, sem contar os feridos.

Esse ênfase das armas e drogas apreendidas fui imensamente maior que o dado às mortes ocorridas, e esse é o papel da mídia no Direito Penal do Inimigo.

Segundo Luiz Flávio Gomes, quem “sustenta o chamado "Direito penal" do inimigo (que é uma espécie de "direito emergencial"), na verdade, pode ser caracterizado como um grande inimigo do Direito penal garantista, porque ele representa um tipo de Direito penal excepcional, contrário aos princípios liberais acolhidos pelo Estado Constitucional e Democrático de Direito.”

E o grande mestre arremata: “Não podemos concordar com a tese de que o Direito penal do inimigo seja inevitável, sob pena de assumirmos postura idêntica àqueles que acobertaram ou apoiaram o Direito penal nazista, que procurou eliminar todos os "estranhos à comunidade", mandando-os para os campos de concentração ou para o forno.”

Para mim, os favelados que estão morrendo não são “os outros”. Morro um pouco com cada um. Para mim o que estamos vendo e legitimando é a teoria difundida por Günther Jakobs que deve ser rechaçada por quem não ama ditadura ou ditadores, de direita ou de esquerda, e esse é exatamente o meu caso.

Em triste constatação, até agora, em 50 dias, 42 pessoas morreram e 73 foram feridas nos confrontos do Complexo do Alemão. E não me iludo: querem mais mortes e nós estamos dando o aval para uma guerra sem fim.

O cinismo social legitima essa política de segurança letal, por achar que é mais conveniente que colocar a droga liberada para ser vendida no botequim da esquina.

Grande engano!

Ela será vendida como já é e continuará sendo, nas esquinas e nos becos, nos templos e nos botequins.

Cegueira é não ver isso.

É não perceber que estamos financiando, via corrupção, os fuzis que nos matam.

Verão daqui a três meses ou menos, outrasmetraladoras pesadas .30 sendo apreendidas no Complexo do Alemão.

Afinal, é o dinheiro da corrupção da proibição, que compra os fuzis.

Também é nossa essa culpa.

Sim, senhoras e senhores: nós também nisso somos culpados!

sábado, junho 16, 2007

A DEMOCRACIA VIOLADA


A COVARDIA DE NÃO SE ACOVARDAR



por Paulo da Vida Athos.


O governador Sérgio Cabral afirmou nesta sexta-feira: “-Nós não vamos nos acovardar. A policia continuará numa estratégia de combate a criminalidade. A informação que nós temos é que na Vila Cruzeiro e no Alemão nós estamos conseguindo sufocar o tráfico. A capacidade financeira deles está bastante diminuta, o enfrentamento está deixando eles enfraquecidos, e nós vamos continuar esse trabalho. Nas outras áreas da cidade também.”

O que sua excelência não está levando em conta são as mortes de inocentes em meio a essa cruzada em que os “bárbaros” são todos aqueles que moram em nossas favelas. Na melhor das hipóteses passará para a história como um governante sanguinário, como alguém que oficialmente escolheu para inimigo o conjunto dos excluídos circunscrito em nossos guetos. Jamais como alguém que ajudou a melhorar a vida dos cariocas, dos cidadãos fluminenses, fomentando a educação, investindo no sistema de saúde, diminuindo o índice de desemprego, promovendo o saneamento básico ou combatendo a fome dos mais miseráveis.

Por mais que a polícia mate o inimigo (que são os criminosos), e ainda que todos os mortos fossem criminosos (e sabemos que tal não é a verdade), nenhum efeito teremos alcançado para conter o crime e a criminalidade, que não seja o de eleger uma determinada categoria de pessoas como inimiga: os favelados. As estruturas consequênciais são realimentadas pelas causas já propagadíssimas pelas ciências sociais, conhecidas por todos, que se somam à corrupção crônica de parte de nosso aparelho policial, nessa bola de neve.

A política de segurança empregada por sua excelência vai muito além da mera covardia e cruza a fronteira da insanidade. Se não bastam as 21 pessoas mortas e 63 feridas nos confrontos entre policiais e traficantes em menos de 45 dias, resultado até aqui alcançado pela pirotecnia dessas ações letais para a sociedade, devemos ficar todos de prontidão. Afinal, o que é uma ditadura senão a supressão dos direitos ou a ingarantia dos mesmos?

Não podemos ficar com os cínicos que acham tudo isso normal. Não é normal. No Estado Constitucional e Democrático de Direito, ter direitos e não ter instrumentos que os garantam é o mesmo que viver em ditadura.

O Ato Institucional n.º 5, que democratas e socialistas de gabinete tanto gostam de mencionar em suas teses e discursos contra o golpe de 64, que foi uma covardia, que deu poder de exceção aos governantes para de forma arbitrária punir os inimigos do regime militar, nem no auge de sua aplicação acobertou um escancarado banho de sangue como o que estamos testemunhando agora. Só em 2007, a polícia fluminense matou 449 pessoas em confrontos. Coisa de envergonhar quem tem pudor e colocar qualquer Médici ou Pinochet no chinelo.

No entanto, o que fazem os operadores do Direito? Nada! Era de se esperar que o Ministério Público, que é órgão fiscalizador da legalidade dos atos com repercussão social, em razão de seu dever, tomasse uma atitude. De lá, só vem silêncio. E para mim tal silêncio é omissão. O mesmo se aplica ao Poder Judiciário, que ainda legitima esses atos hostis com cara de guerra civil.

Não pode quedar inerte aquela fatia da sociedade que tem condições de ser ouvida, que é a classe média, apenas porque aparentemente não é para ela que a banda toca. Essa inércia é burra e a ela se junta o silêncio da Igreja que, através na V Conferência Geral do Episcopado da América-Latina e do Caribe, amordaçou os que participam da Teologia da Libertação, que nada mais é que o cristianismo a favor dos excluídos.

A conjunção desses dois fatores, mais o papel desempenhado pela mídia, deixa claro que o que estamos aplicando aos pobres é o Direito Penal do Inimigo, uma espécie de direito emergencial onde o delírio não encontra fronteira e inexiste controle democrático.

E o papel da mídia é fundamental. Ao legitimar as ações policiais e a política genocida de segurança pública que está sendo aplicada no Complexo do Alemão e em todas as comunidades carentes (quando a mídia não denuncia na verdade está legitimando), ela é conivente. Carros blindados e fuzis em favelas é como briga de cães entre taças de cristais. As paredes de alvenaria ou de madeira das casas e barracos são transpassadas pela munição usada em campos de batalhas. Dentro dessas casas, inocentes e excluídos são as vítimas. Crianças, velhos, senhoras, jovens e meninos, famílias inteiras à mercê da insanidade estatal e nós, nós aqui de fora, pela janela de nossas televisões, assistindo tudo entre o jantar e a novela das oito. Nós somos nós, ora bolas. Eles são os outros, os inimigos.

O Direito Penal do Inimigo, teoria difundida pelo alemão Günther Jakobs, é a aplicação nazi-fascista do Direito. É o direito seletivo. Antítese do princípio da isonomia democrática. Essa teoria dá legitimidade à barbárie que está acontecendo na cidade do Rio de Janeiro, aos excluídos da cidade do Rio de Janeiro, aos favelados, aos despossuídos, e serve como bálsamo para o cinismo social que a tudo testemunha de sua TVida.

É assim que funciona o Direito Penal do Inimigo, com o respaldo de alguns doutrinadores penais, que, nos momentos de comoção social, se somam à mídia, aos legisladores eleitoreiros, aos governantes incompetentes, para enganar o povo com alguma lei ignominiosa, mas, principalmente, para atemorizar o Juiz garantidor.

E esse é o pior dos efeitos. Ao acovardar quem tem o poder de garantir o Direito, o Juiz, deixa a sociedade inteira à mercê do arbítrio. E o que é uma ditadura senão a possibilidade efetiva de atuar impune e arbitrariamente, violando regras e estuprando almas e consciências, na certeza de que nada acontecerá?

A galeria aplaude, mas, como diz o samba, eu continuo na pista. Sei que essa guerra desastrada está há muito tempo perdida. Aliás, já nasceu derrotada.

No entanto, o que mais me incomoda é que, antes, foi preciso estuprar a Democracia.


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segunda-feira, junho 11, 2007

ODE À VILA CRUZEIRO














ODE À VILA CRUZEIRO



por Paulo da Vida Athos


Meus gritos despertam as noites,

ferem os tímpanos das madrugadas,

atravessam ruas e cidades,

violentam fronteiras,

misturam-se aos berros de dor,

aos sussurros e gemidos de amor,

ao silêncio que acompanha a lágrima que corre na face da vida,

antes de se perder no nada.


Meu grito é mais que um grito!


É lamento de cada esperança morta,

mas também vagido.


Se incomodar, pouco importa!

Vai além das janelas, não respeita portas

trancadas pelo cinismo, pelo egoísmo,

pela apatia geral.


Meu grito é irreprimível.


Sai de mim

mas pertence aos bêbados caídos em cada beco,

às putas e decaídas,

aos meninos que moram na esquina,

às vítimas de cada chacina,

à legião excluída do banquete da vida.


Meu grito é a rajada mortal,

é o som da bala perdida,

o olhar de incredulidade,

da dor surda, dor aguda,

da mãe que perde a vida,

por ela criada, por ela parida,

no momento exato e fatal

quando lhe falta o chão,

quando lhe roubam o ar,

e ainda tem que escutar...

que tudo isso é normal.


Meu grito é mais que grito!


É uivo de cão errante, malsão,

de animal em extinção,

que vai por aí sem se importar

se está na contramão,

se o vão pegar no contrapé,

se a caminhada é curta ou distante,

se o caminho existe ou se é só sonho

de alma delirante.


Meu grito é vira-lata

e será ouvido em cada esquina,

invadirá janelas abertas,

deixará certezas incertas,

converterá alguns e seguirá caminho.


Meu grito é dor de pranto,

que teimam fingir não ouvir,

que vem de escuras vielas,

dos cruzeiros, das favelas,

dos meninos em volta de velas,

sem amanhã para despertar...


Meu grito é grito demente!

Eu como ele, não mudo!

Sou desses seres inválidos para a covardia.

Dizem-me louco, digo-os surdos.




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terça-feira, junho 05, 2007

LIÇÕES QUE A VIDA ENSINA


LIÇÕES QUE A VIDA ENSINA...



Querida amiga... querido amigo.

Tentarei seguir suas palavras de conselho e...seguir adiante.

Quanto a me humilharem, não será muito fácil fazê-lo.

Ofendido, indignado, revoltado: sim!

Humilhado, não.

Aprendi com os mais humildes que os humildes nunca se sentem humilhados.

Com meu carinho,

Paulo da Vida Athos.



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domingo, maio 27, 2007

MEDO E CORAGEM


MEDO E CORAGEM


Amiga minha, amigo meu.

Mais uma semana inciante e de incertezas plenas.

Tentarei não ter medo, como faço sempre: de sonhar, de lutar, de viver, de perder ou vencer.

Mas quando o medo chegar, também como sempre, que minha coragem seja um pouquinho, só um pouquinho já está bom, maior que meu medo.

Muita paz, um belo domingo e uma semana de luz em sua vida.

Um beijo em seu coração hospitaleiro.

Paulo da Vida Athos.

LULA, ONTEM E (AINDA) HOJE


LULA, ONTEM E (AINDA) HOJE


Caro mestre e amigo Odemar Leotti,


Não vou responder agora quanto à minha indignação. Estou analisando para não me precipitar, querendo olhar o prisma em seu todo.

O funcionalismo federal, em alguns setores mais e outros menos, está há décadas com o salário corroído. Pior ainda a grande massa, aquela que tem como base o salário mínimo (veja que estou excetuando os que nem isso tem): nesse aspecto a coisa é inominável.

Verdade que o salário mínimo teve aumento real, não apenas nominal, mas é real que sua qualidade de aviltamento continua igual. Mas isso também é um trem que não se resolve por decreto.

Não acho justo o aumento de Lula, dos congressistas e de ninguém que ganhe mais que 10 salários mínimos enquanto nossa realidade for essa que aí está. Realidade indigente. Inumana.

Dou razão a você quando afirma sobre o posicionamento de Lula "SE OS OUTROS FUNCIONÁRIOS NAO VÃO TER EU TAMBÉM NAO QUERO TER. ISSO SERIA HONRADO. SE FOSSE EU LÁ FARIA ISSO".

A grande questão que eu enfrentaria seria mais contundente até, e tanto que não sei qual seria o desfecho final em relação ao povo brasileiro. Em meu radicalismo não pagaria mais os juros da dívida interna. Aliás, nem a dívida real (caso ainda exista de fato). Mas e as conseqüências? Não sei. Mas Brizola pregava isso em um mundo que, então, não era tão globalizado como hoje. Sabemos que não basta querer não pagar. Assim como não basta querer colocar o salário mínimo em R$3.800,00. A banca não bancaria.

Não é de fácil solução (se é que existe alguma sem passar por graves depressões ou convulsões e se é que tal levaria a algum lugar melhor).

Poderia afirmar a você, que tem meu respeito e admiração, que descarto Lula de pronto, nesse momento. Não. Ainda não, para mim. Claro que tenho clara a visão de seus erros como governante e, dentre eles, o mais grave é o que agora desfralda: a Lei de Greve.

Greve é greve. Greve se opõe. Contra tudo, todos e, principalmente, não se adequa a normas. A norma da greve é seu fim. Os meios não são importantes e regras são feitas para que ela, a greve, as descarte.

Esse erro em Lula é imperdoável.

Porém, caro amigo e mestre, Lula, Collor, Jango, Getúlio, etc. não têm muita importância para mim: e sim o povo. O que está sendo por ele, o povo, conquistado. E, por enquanto (e não me refiro a amanhã de manhã), ainda não vejo alguém que possa fazer melhor que ele em seu lugar. Talvez Heloísa Helena. Talvez.

Não sou filiado a nenhum partido político, hoje. Não creio ser preciso. Prefiro me engajar nas lutas que, independente de sua origem ideológica, vá atender aos anseios do povo. Essa é minha bandeira. E principalmente pelos mais miseráveis entre os miseráveis.

Creio na política e nos resultados dela. Não creio na maioria dos políticos, o que é bem diferente.

Sintetizando, discordo de Lula quanto a aceitar o aumento de seu salário, creio que a atitude que você tomaria em seu lugar é a única digna e que se amoldaria à história dele como político.

E, mesmo assim, ele deveria lutar contra a tal Lei de Greve, ou declarar seu distanciamento de sua trajetória enquanto líder classista e sindical, devotando-se de vez ao neoliberalismo que, como sabemos, jamais compatibilizará crescimento econômico sustentável com uma justa distribuição de renda, como alardeiam.

Como vê, estou em compasso de observação.

Tenho muitas críticas a Lula. Mas ainda são mais relevantes as críticas positivas que tenho com relação a ele.

Ou seja, ainda não perdi a esperança em que o povo tenha um ganho real, nem creio que qualquer lei contra greve tenha aplicabilidade fora dos limites que já hoje temos.

Com minha admiração e respeito,

Paulo.



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terça-feira, maio 08, 2007

AS CRUZES DA VILA CRUZEIRO


AS CRUZES DA VILA CRUZEIRO




por Paulo da Vida Athos


Quando diante do saldo de sangue de 30 feridos e 6 mortos, a maioria absoluta e esmagadora de inocentes, o comandante-geral da PM, coronel Ubiratan Ângelo avalia positivamente a ocupação que já dura uma semana na Vila Cruzeiro, na Penha, subúrbio do Rio, existe algo insano no ar.

Apesar da insanidade de uma operação de guerra onde a área de conflito é nada mais nada menos que uma área residencial, na verdade um gueto povoado pelos excluídos da justiça social, sua senhoria acha que o saldo é positivo.

O assassinato covarde e frio de dois policiais militares deram início a essa campanha militar que já dura uma semana e mais de três dezenas de vidas (afinal, não é preciso morrer para se sentir com a vida atingida). Para alguns é como um jogo: se mataram dois, temos que matar no mínimo quatro. Ocorre que o campo é uma comunidade que sempre foi abandonada à própria sorte e que só é lembrada pelo Estado para a prática desses jogos de guerra em que o saldo de sangue, invariavelmente, é composto quase que em sua totalidade, de civis inocentes.

O ponto principal sobre a ineficiência dessas invasões que gera esse número absurdo de feridos e mortos que não têm nada a ver com a questão, está diretamente relacionado da natureza militarizada da instituição invasora. A mais convincente prova está na prisão de Elias Maluco, aquele que comandou a morte do jornalista Tim Lopes, naquele mesmo local.

A atuação da polícia civil não foi esse desastre e essa falta de respeito para com a vida de cidadãos de bem (vez que a favela é isso mesmo, composta de pobres, mas cidadãos de bem, trabalhadores em sua maioria, maioria essa que é composta por mais de 98% de seus moradores). O que me deixa indignado é a omissão da sociedade diante dessa insensatez. Mais que omissão, vejo-a legitimando essas ações de guerra contra milhares de pessoas, e não apenas a sociedade. A mídia também. Mas da mídia nada mais estranho, serva da elite que é e sempre foi, tem mais que ser usada contra o povo já que tal faz parte de sua história e sociologicamente é esse um de seus papéis.

Ainda ontem via nos jornais, na boca do povo e na internet a ira santa de todos contra o que os israelenses fizeram no Líbano. Ainda hoje vejo a mídia em críticas à demente invasão ao Iraque. Até passeatas em protesto vi brasileiros se colocarem contra aqueles crimes pelas ruas do Rio, de São Paulo, de Brasília e outras capitais. Mas santo de casa não faz milagre e não importa muito se a matança na Vila Cruzeiro vai aumentar ainda mais o número de mortos e feridos nessas escaramuças que envolve policiais e bandidos pelas ruas do Rio.

Para quem não sabe, em todo o ano passado, 144 policiais militares foram mortos no Rio, e o Relatório “Bala Perdida”, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, “constatou que 224 pessoas foram vítimas de balas perdidas em 2006, de acordo com os Registros de Ocorrências das Delegacias Policiais do Estado. Do total, 19 foram vítimas fatais”.

“O perfil levantado pelo estudo revela que, das vítimas fatais, 13 eram do sexo masculino e, na sua maioria, jovens e adultos com 18 anos ou mais. Os dados indicam ainda que a capital do Rio de Janeiro registrou o maior índice de vítimas de bala perdida: 17 fatais e 169 não fatais. Em seguida, vem a Baixada Fluminense com duas vítimas fatais e 18 não fatais”.

“O estudo divulgou também dados do mês de janeiro de 2007. Foram constatadas 31 vítimas de bala perdida, sendo três delas fatais. Todas mencionadas eram do sexo masculino - uma criança, um adolescente e um adulto - e foram mortos em via pública”.

Inovando, a nossa gloriosa policia militar, tal como os israelenses fazem na faixa de gaza, está dinamitando “redutos do inimigo”. Talvez isso agrade a alguns insanos que estejam considerando tal ato como uma forma de fazer “remoção de favelas”. Vai que a onda pegue...

Sua senhoria ainda nos fez o favor de nos brindar com esse primor: “-Esse final de semana nós demos um presente aos moradores da Vila Cruzeiro que é devolver os espaços urbanos para que o serviço público possa voltar lá. Vamos permanecer na favela e alcançar os algozes do BOPE, vamos acabar com o tráfico de drogas.”

Podemos até acreditar que matarão os assassinos dos infelizes policiais militares que perderam suas vidas nessa política burra de nossa segurança pública. Mas acabar com o tráfico? Isso é fazer pouco caso da inteligência do povo. O povo pode ser omisso. Mas não é burro.

A sociedade brasileira em geral, e a carioca em especial, não pode e nem deve ser solidária, através do silêncio, nesse compromisso inominável de tolerância e apoio tácito a essas mortes, a essas invasões. Seria cretino tentar se enganar achando que esses feridos e mortos são criminosos. Desse número de mortos e feridos na Vila Cruzeiro: apenas um ferido e um morto eram bandidos. Os demais, assim como os policiais, inocentes! Aceitar isso é consagrar a idiotice de que nossa política de segurança é uma maravilha. Não é! Segurança Pública que não se faz com inteligência e tecnologia é burrice e o resultado é chacina!

A Democracia será sempre uma quimera, uma ilusão idiota, se a cidadania é por qualquer forma vilipendiada. Continuar nesse caminho é abrir as portas para uma prática que nunca nos abandonou: os porões e as torturas.

Não está longe esse horizonte. As chacinas já estão de volta.

Nas guerras, senhoras e senhores, não há democracia. Existe apenas, a vontade do vencedor.


Então nós, assim como a Vila Cruzeiro, estaremos sem voz...


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sábado, maio 05, 2007

O AMOR NÃO MORRE


O AMOR NÃO MORRE
http://amok-she.blogspot.com.br/2003/12/o-amor-no-morre.html



por Paulo da Vida Athos.




O amor não morre.
É como nuvem que se renova após a estia, é como flores que retornam com a primavera.
Ao assistirmos o agonizar de um grande amor, independente da razão que o provocou, somos inclinados a aceitar que nossa felicidade também feneceu com ele e que não existe mais razão para se estar vivendo.
Tolos, nós somos. Tolos e imaturos por pensarmos assim. Não foi o amor quem morreu. O amor não morre. Morreu uma razão de amar, apenas.
Assim como more um cravo.
Assim como uma nuvem condensada se transforma em chuva e se desfaz.
Porém, essa mesma chuva que caiu se transmudará em nuvem, um dia, e a queda do cravo não implica na destruição da raiz que o gerou.
Nosso coração é como um sol.
Com seu calor podemos secar as lágrimas, suavemente, em lenta evaporação, compondo uma nova nuvem interior.
Nosso coração é também o solo onde nossa sensibilidade aprofunda suas raízes em busca de seiva para novas flores.
Por quê chorar, então?
Não há razão...
Bom é o terreno úmido que facilita o trabalho do sol na formação de novas nuvens.
Sem chuvas não há colheitas.
A queda da flor é razão de força para o botão que irá desabrochar.
O amor não morre...
Crer na morte do amor é crer na morte da vida e a vida é imperecível.
O amor é o vôo Fênix no céu interior de cada um de nós.
É renascença.
É eternidade.
Lembre-se de seu primeiro amor.
Lembre-se de todos os amores que você viveu até que essas últimas lágrimas fluíssem de seus olhos.
Lembre-se da importância que tiveram em cada fase de sua vida.
Lembre-se de que antes dele vieram muitos e que muitos outros virão depois... amanhã... hoje mesmo, talvez.
E não esqueça que, afinal...
- Você é o Amor!



Rio de Janeiro, junho de 1974.


Fonte:  http://amok-she.blogspot.com.br/2003/12/o-amor-no-morre.html

terça-feira, maio 01, 2007

SER POETA


SER POETA

por Paulo da Vida Athos.

Ser poeta é sacudir as dores com sonhos, lançando-as fora da memória, adormecendo em festa e despertando em devaneio, concluindo que a dor faz parte da vida;

É imaginar o som dos pingos de chuva cancionando nas telhas, mesmo quando se vive numa selva de concreto e aço, de onde foram banidos os telhados antigos, mesmo diante de um dia de sol;

É um crer constante, mesmo quando tudo não nos leva a ter esperança alguma, mesmo quando um completo ruir nos envolve, ou quando o desespero ronda a nossa vida;

É atravessar a vida sem esconder o sorriso ou a lágrima, sem se arrepender do momento vivido, seja ele de amor ou tristeza;

É navegar no azul do céu mesmo quando a chuva cai e mesmo até quando lágrimas turvarem nossa visão;

É brindar com um sorriso o sorriso da alvorada e não pensar em chorar quando viver um pôr-do-sol;

É gostar da chuva repentina que nos surpreende em plena rua e do vento que nos desmancha os cabelos, pois tanto uma quanto o outro, não repetem o mesmo percurso duas vezes;

É se sentir criança, é sentir juventude independente de qualquer idade, redescobrindo mistérios de gnomos e fadas, ocultos em nossa lembrança;

É vislumbrar a luz e as cores, mesmo imerso em trevas, mesmo desterrados de ambas, como os cegos fazem;

É sentir alegria ao voltar para casa e não sentir tristeza quando não tiver uma casa para voltar;

É um agradecer constante à Vida, sem quase nada pedir, concluindo que temos muito mais do que poderemos, humanamente, viver;

É sentir felicidade ao voltar para casa, e não sentir tristeza quando não tiver uma casa para voltar;

É viver!, aceitando a vida como ela é, sem se esconder como muitos fazem, porque nossa vida é uma vida só, impreterivelmente uma, irrecorrivelmente única, e, se perdermos tempo em tentar modificá-la, há de chegar o tempo em que não teremos tempo para nos arrependermos dessa tola presunção;

É ter ciência de que a Vida é passageira do trem do Tempo.

Um trem que não para nas estações...




Foto: Mário Eloy - Poeta -1938 Museu do Chiado

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Oração a Xangô

Kaô Kabecilê, Xangô! Que a justiça seja acompanhada pela sabedoria. Que a verdade seja acompanhada pela misericórdia. Que a força seja acomp...